O Morro dos Ventos Uivantes

17:04


A DESTRUTIVIDADE DE UM AMOR QUE NUNCA MORRE

Esse mês de Abril (2019) uma das professoras de literatura inglesa do nosso curso de Letras trouxe a proposta de a turma ler o livro, para uma posterior discussão/debate sobre essa temática, A Destrutividade do amor entre Catherine e Heatcliff em O Morro dos Ventes Uivantes.  Eu aproveitei para dar uma segunda chance a leitura do livro, que já havia começado uma vez, mas abandonado. Então recomecei.

Agora com a releitura e talvez a maturidade pra olhar o casal debaixo desse tema, tudo ficou mais claro. Imaginava que eu tinha um problema quanto a dificuldade em ler clássicos, mas estudando e vendo opiniões de outras pessoas a respeito da obra ao longo do tempo, desde lá pro volta de 1840, como essa obra foi recebida, se ate nos dias atuais as temática a respeito dele ainda são difíceis de compreender.

 É sabido que ele não foi bem visto pela sociedade da época que era mais conservadora e moralista, e tudo o que se passa no livro, em torno de Catherine e Heatcliff e das diferenças sociais, de classes, de cor, raça.. Tudo isso que é melhor aceito nos dias atuais ainda nos divide, entre gostar ou não  do livro, amar ou odiar aquele relacionamento impossível e doentio. São diversas questões a serem refletidas, mas entre tantas a que venho ressaltar é o tema de debate que meu grupo ficou responsável.

"Pois que desperte em tormento" disse ele com veemência, soltando um grito numa cólera incontrolada. "Por que mentiu ela até o fim? Onde está ela? Não está aqui, nem no Céu, nem morta! Onde está então? Oh! Disseste que não te importava que eu sofresse! Pois o que eu te digo agora, repeti-lo-ei até que a minha língua paralise: Catherine Earnshaw, enquanto eu viver não descansarás em paz! Disseste que te matei. Pois então me assombra a existência! Os assassinados costumam assombrar a vida de quem os matou, e eu tenho a certeza de que os espíritos andam pela terra. Toma a forma que quiseres, mas vem para junto de mim e enlouquece-me! Não me deixes só, neste abismo onde não te encontro! Oh, Meu Deus! É indescritível a dor que sinto! Como posso eu viver sem a minha vida?! Como posso eu viver sem a minha alma?!"

Nesse trecho do livro, logo após a morte de Catherine, percebemos uma das faces da forma destrutiva desse amor (obsessão talvez) que Heatcliff nutria por sua amada. Esse amor que ao longo dos anos, à medida que foi sua salvação, lá no começo ainda na infância quando os dois eram inseparáveis, até começar a ser o motivo do qual Heatcliff começa a querer buscar vinganças em nome dela.

A escolha que Catherine faz, ao aceitar o casamento com Linton de certa forma começa essa jornada de matar o pouco de ser humano que ainda havia em seu amigo. Quando Heatcliff volta, uma pessoa diferente, um adulto cheio de remorsos e mágoas do passado, disposto a passar por cima de todos, exceto de uma pessoa. Ela.

O declínio de Heatcliff no que diz respeito á eternidade desse amor, é perceptível desde o momento em que ele sabe do noivado entre Catherine e Linton e decide ir embora sem dizer adeus, dando início a sua jornada de conseguir condições financeiras (já que o maior de todos os motivos para Cath casar com Linton era precisamente a condição financeira e a posição social que ele tinha, além da boa aparência que faltava em Heatcliff) para que pudesse retornar e buscar a vingança que queria. 

Quando ele volta, a vingança não é direcionada a ele, mas continua a ferir-se e a querer atingi-la por não estar com ele, casa-se com Isabella Linton, piorando as coisas. Direcionando o sofrimento que de certa forma, ao fazer Isabella passar, estaria atingindo também Edgar, em nome de ter perdido o amor de Catherine  graças a ele. 

Com morte de Catherine, como fica claro no trecho do livro que citei acima, a não aceitação do que já se perdeu. É a imagem dela que ele carrega para o resto da vida. É a incapacidade de amar qualquer ser humano, antes e depois dela. E o desejo que a amada nunca tivesse descansado em paz, para que de certa forma permanecesse perto, mesmo que como fantasma. O que ele demonstrou acreditar, mesmo no início do livro, após passados 20 anos, quando um novo morador da granja chega ao Morro dos Ventos e passa uma noite em sua casa. Quando o hospede tem pesadelos com Catherine e o conta a Heatcliff, esse ainda sofre e implora sozinho que ela volte que ela entre em sua casa, que ele a espera por tanto tempo. 

Essa é a destrutividade do amor que nunca morre! Ela é refletida do início ao fim do livro através da dor de Heatcliff e da falta de amor pelos outros, exceto por Catherine. O que é um mar que se divide, entre quem lê. Uma linha tênue entre amor e ódio pelo personagem. Quase não se consegue decidir se este seria um herói ou um vilão. Dizem que há uma linha ténue entre esses respectivos sentimentos, e que onde há ódio, talvez já existisse o amor, ou vise versa. O fato é que, mesmo compreendendo os sentimentos de Heatcliff, é difícil amá-lo. Pela complexidade do personagem, e pela imagem do que se tem de como seria viver um amor dentro do que é possível. O que não se consegue ter no livro.  Talvez até consigamos sentir o que se assemelhe ao que Catherine dizia sentir. O amava, mas não era capaz de ficar ao lado dele. E você seria capaz?

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